Forbidden - Parte 4

Louis Os acontecimentos daquela noite repetiam-se em minha mente sempre que pusesse meus olhos em Ilka. Sentia-me incapaz, por n...



Louis

Os acontecimentos daquela noite repetiam-se em minha mente sempre que pusesse meus olhos em Ilka. Sentia-me incapaz, por não tê-la protegido, por não ter persistido naquele final de tarde, por não ter dito a ela o que sentia, se tivesse, de certeza que estaríamos numa posição completamente diferente.
Poderia olhar para seus olhos e encontrar aquele brilho inocente e cativante que me conquistara, poderia enxergar a beleza da sua aura doce. Só que já não era possível tê-la de volta, não era possível encontrar qualquer característica singular dela naquela jovem mulher. Ilka tinha desaparecido, sua essência tinha sido removida.

Ela saia de seu dormitório, ela ia as aulas, algumas delas, fazia seus trabalhos, ao menos aqueles que não envolvessem pintura ou desenho. Já não era possível encontrá-la sentada em algum canto, tanto de uma turma ou da biblioteca, com seu velho caderno que não entendia como ainda existiam páginas para fazer rabiscos. Sentia-me especial pelo simples fato de ter meus olhos numa daquelas folhas, o que ela achava mais bonito em mim.

Estava farto de somente ouvir o som de sua voz em choros noturnos, ou quando tinha algum pesadelo, fazendo-me pular do sofá que ocupava a maior parte da sala do seu dormitório. Aconchega-la era bom, tê-la em meus braços também, mas não era daquele jeito que eu queria, quando a acalma-se, quando fazia promessas, que o que a fez ligar para mim horrorizada, pedindo por ajuda naquela noite, um dia não doesse tanto assim.

Hoje, era a primeira vez que ela dormiu por toda a noite, não houve choros e nem gritos, dei-lhe o seu jantar, que obriguei-a comer, tomou seu banho, algo que ela fazia mais de quatro vezes por dia, e deitou-se. Meus olhos não fecharam por um minuto se quer, meus olhos não têm estado fechados nas últimas semanas, queria que ela falasse o que tinha acontecido, ou que fosse suficientemente inteligente para chegar ao menos numa ideia do que aconteceu.

Apenas o som de sua voz rouca entre soluços de quem chora, a maneira desesperada com que meu nome soava pelo telefone, o pedido de ajuda, a maneira que a encontrei encolhida por debaixo de um arbusto no meio do parque, escondendo-se, abraçando seu corpo inteiro, o jeito que ela saltou quando toquei-lhe, colocando-se em pé com os olhos arregalados dando passos para trás, fugindo. Tresandava a álcool, sem sinais de sua bolsa, seus sapatos, e nem do blusão de lã que ela usava quando nos separamos na porta da biblioteca. Não era capaz de pensar, ou desejava não pensar no que tinha acontecido com ela, só queria protege-la, só iria protege-la do que a mudou.

As imagens daquela noite esvoaçaram da minha mente com o som de batidas na porta. O relógio que estava ao lado da pequena televisão plasma indicava que ainda faltavam três minutos para as seis da manhã, removendo qualquer hipótese de ser um estudante por detrás da porta. Universitários não acordam aos sábado antes das nove horas da manhã.

Arrastei-me para fora do sofá sem nem mesmo ordenar que a pessoa aguardasse, não sabia o que iria acordar mais facilmente Ilka, se era o som da minha voz ou as batidas na porta de madeira.

Coloquei a trinca de segurança antes de abrir a porta, pude apenas ver  os  ombros largos que  envergavam uma camisa azul com um pulôver castanho, batendo ritimicamente o seu pé direito.

- Em que posso ajuda-lo? – Questionei chamando a atenção do visitante.

Irritação domou meu corpo quando reconheci o homem que quase acordou Ilka. Revirei os olhos enquanto fechava a porta para remover o trinco de segurança.

- Que faz cá tão cedo, Professor Edun? – Questionei com impaciência, aquele homem já começava a deixar-me frustrado com tanta insistência.

- O mesmo de sempre, será possível falar com Ilka agora?

Em três semanas já era sem erro a vigésima vez que ele batia aquela porta, sempre tentando falar com Ilka. Entendia que ele foi o orientador dela de curso, porém ele não entendia a mensagem, mesmo depois que ela pediu a troca de orientador e mesmo mudar para outra turma de História das Artes. Aguardava por ela na saída das aulas, estava sempre na biblioteca quando lá estávamos, por três vezes tentou falar com ela quando íamos tomar o pequeno-almoço num dos cafés ao redor do campus, que sempre terminava comigo assistindo a primeira aula faminto. Parecia um perseguidor, um obcecado, ela já não o queria como orientador, não há nada demais nisso, eu já ia no meu terceiro e só estava no segundo ano, e nenhum deles tentou tirar satisfações, mas Professor Edun parecia um ex-namorado que não lidava bem com o término da relação. Homem dramático.

- Não sei se o professor verificou, não são horas de fazer visitas! – informei a ele apoiando meu braço na berma da porta.

- Acho que tu também não Sr. Smith – reivindicou cruzando seus braços  por detrás de suas costas.

- Não sou uma visita – cruzei meus braços sobre meu peito – E o senhor interrompeu meu sono – disse fingindo um bocejo.

- Tu estás com ela? – O tom educado sumiu sendo domado por algo que parecia raiva ou dor, como sofrimento, o tom baixo mais carregado, que arrepiou-me, intrigou-me.

- Não como se isso fosse da sua conta, mas sempre estive com ela – disse com um sorriso nos lábios.

Seus lábios tinham um sorriso, mas seus olhos transmitiam alguma coisa que não era capaz de identificar, mas que não me transmitia o conforto que seu sorriso transmitia.

- Sabe porque Ilka trocou de orientador? – Questionou-me.

- Srta, Piedade para o senhor – corrige-o deixando meus braços caírem de lado – Deve ser por alguma razão que envolve "perseguição” ou “inconveniência”, acho que o Professor sabe que tem uma atitude um tanto sufocante em relação a minha Ilka! – o sorriso dos seus lábios desvaneceu – Deseja mais alguma coisa, além de uma restrição cautelar? – Mostrei-lhe o meu maior sorriso.

- Não, obrigada – disse despedindo-se, dando uma espreitada nada discreta no interior do dormitório, evidenciado o que tinha consigo.

O pedaço de tecido que tinha em sua mão despertou minha atenção. Não sei se era devido o material ou a cor que tinha, se antes me sentia irritado com a sua presença, agora continha uma raiva digna de infetar a China só por estar respirando.

Aquele era o blusão de Ilka, o blusão que ela devia estar usando quando a apanhei apavorada naquele quarto. O blusão que ela  devia estar a usar protegendo-se do frio imenso de Londres, o blusão que ela devia encolher-se no interior enquanto chorava em meus braços após impedi-la de magoar-se quando violentamente esfaqueava o colchão de sua cama. Aquele era o blusão que jamais devia ter sido removido num simples encontro de orientação, algo que se fosse somente isso, ela teria dito. Aquele homem tinha a destruído, e eu faria o mesmo com ele. Não importaria o que eu tivesse que fazer

- Professor Edun! – Segui-o até a porta do elevador, fazendo virar-se curioso com o meu chamado.

Segurei pela borda da gola de sua camisa e joguei-o contra a porta do elevador que ele tinha chamado segundos antes de o alcançar. Um sorriso que alcançava os seus olhos dominaram seu rosto aumentando a minha raiva, a imensa vontade que eu tinha de destruir aquele homem, aquele monstro.

- Não sei o que tu fizeste nela, mas se tu chegas apenas um quilômetro dela eu farei algo muito pior contigo, algo que nunca te fará esquecer o quão podre tu és! – avisei-o.

Seu sorriso aumentou e seu olhos abandonaram os meus direcionando-se para algo atrás de mim. Não precisava virar-me para saber o que era, nem sequer tive tempo de o fazer porque as portas do elevador abriram-se e atirei-o  com toda a força que tinha para o interior do elevador.

- Eu apenas amei-te Ilka – disse para a pessoa que tinha a certeza que nos assistia.

Tudo que vi depois foi a meu punho em contato com o rosto dele e o vermelho no chão do sangue que saiu de sua boca.

Virei-me e vi Ilka, no meio do corredor com uma enorme camisola que ficava até seus joelhos tremendo, com olhos fixos no bicho que deixava para trás mostrando todo seu horror, toda sua dor naquele olhar.

Rodei meus braços envolta de seu corpo e girei-a, quebrando o contacto visual entre os dois, e sendo eu a encara-lo. Retirou a mão das portas do elevador permitindo que as mesmas fechassem-se.

Mesmo assim ainda tive tempo de puder ler os seus lábios que murmuravam. “ Minha, sempre minha".

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11 comentários

  1. my gosh, esse é o meu capitulo favorito dessa historia, nem sei porque mas amei.
    Hoje tive a minha primeira aula de historia das artes, o meu professor é louco (ele já tem na casa dele a urna que ele quer que ponham as cinzas dele quando morrer), deve ser da disciplina.
    No primeiro post disseste que não conhecias o ator Adetomiwa Edum, eu também não conhecia ele, só depois de assistir a serie "merlin", onde ele fazia da irmão da Guinever, um dos cavalheiros da tarola redonda, soube também que fez de Romeu numa peça (primeiro Romeu negro que já vi na minha vida) quando me inscrevi a primeira a vez para fazer a curtinha foi pouco depois da personagem dele morrer, foi tipo um tributo ou algo de gênero

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  2. Pobre Ilka :( Espero que ela acabe bem.
    Espero pela continuação.

    Bjs :)

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  3. Acho que ainda será o professor a ficar com a Ilka, mas fico à espera de alguma surpresa.
    Posta logo.
    Beijos.

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  4. Continuo a preferir o Louis.
    Posta logo.

    Beijos :)

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  5. Já nem sei com quem é que a Ilka vai ficar. Só me resta esperar.

    Beijos.

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